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Vieira como voto crítico: a recusa que se torna legível

  • Foto do escritor: Taz
    Taz
  • 16 de jan.
  • 2 min de leitura
Cartaz presidencial Vieira

Pensar no significado do voto em Vieira, não é pensar num projeto político tradicional. Não é escolher um presidente no sentido clássico. É refletir sobre aquilo que a sua candidatura revela acerca da própria política. Vieira apresenta-se como um paradoxo. Candidata-se sem desejar verdadeiramente ocupar o cargo. Fala com humor, mas não sem ética.


Quando refere a Venezuela, diz que por muito sanguinários ou cocainómanos que sejamos, nenhum de nós gostaria de ser extraído daquela forma. A frase é desconfortável, exagerada, quase grotesca — e é precisamente aí que reside a sua força: lembra-nos que por trás das figuras políticas continuam a existir corpos, medo, humilhação e violência. O mesmo acontece quando mistura grandes temas internacionais com desvios banais. Não porque acredite neles, mas porque os reduz ao ridículo. O absurdo funciona como uma lente: não distorce a realidade, expõe a fragilidade da sua construção. Esse método torna-se ainda mais evidente nas suas propostas: uma prostituta para cada casa, uma mãe profissional em cada esquina, vinho canalizado, Ferraris para todos. Nada disto pretende ser levado à letra. É um exagero brutal que espelha, em caricatura, a lógica das promessas políticas – faceis e universais. Ao levar o populismo até ao limite do grotesco, Vieira revela o seu mecanismo interno: prometer tudo, oferecer tudo, seduzir sem responsabilidade.


O absurdo, aqui, não é fuga à política. É desmascaramento do seu teatro. Quando afirma “só desisto se for eleito”, Vieira desmonta ainda mais o jogo. Mostra que o poder é desejado, mas ao mesmo tempo recusado. Que a autoridade é uma construção simbólica que ele não aceita nem quando legitimada pelo povo. Ao declarar que desistiria se ganhasse, recusa a própria ideia de presidência enquanto lugar superior, sagrado. Há, neste gesto, algo profundamente libertador, anarquista. Não no sentido da destruição violenta, mas, nesta recusa simbólica da autoridade. Ele entra no sistema para o expor, não para o habitar. Usa o riso, o exagero e o ridículo como ferramentas críticas. Não ridiculariza apenas os políticos – ridiculariza o próprio ritual democrático.


É por isso que o voto em Vieira pode ser entendido como um verdadeiro voto de indignação. Mais claro do que o voto nulo, mais ativo do que o voto em branco. Não é ausência, como o branco. Não é ambiguidade, como o nulo. É indignação com forma. É protesto com assinatura. O voto em Vieira não se limita a recusar: ele escolhe recusar. E ao fazê-lo, transforma a própria recusa num gesto político legível. Não desaparece nas estatísticas como erro, nem se dissolve no silêncio da neutralidade. Assume-se como desconforto, como rutura, como exposição do teatro democrático. Assim, o voto em Vieira, não é um voto de confiança governativa. É um voto de consciência crítica. Um voto que não aponta para soluções, mas para fissuras. Um voto que transforma a política em espelho, e não em promessa. Talvez, no fundo, o voto em Vieira não seja sobre ele. Seja sobre nós. Sobre a facilidade com que aceitamos promessas, sobre a confusão entre liderança e espetáculo, sobre o conforto com que assistimos ao teatro do poder. E talvez a pergunta final não seja se Vieira poderia ser presidente, mas se ainda sabemos distinguir entre governar… e representar.


  • Taz, 16/05/2025

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