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Voto no Jorge Pinto

  • Foto do escritor: CN
    CN
  • 16 de jan.
  • 3 min de leitura
Cartaz presidenciais Jorge Pinto


Quando vi o anúncio de mais uma candidatura à esquerda, confesso que o primeiro impulso foi de exasperação. A palavra “fragmentação” veio-me à cabeça e, logo depois, o nome: Jorge Pinto. Jovem, relativamente desconhecido, sem passado mediático, sem a gravitas típica de quem entra nestas corridas com décadas de carreira. E, curiosamente, o que no início me soou estranho foi o que acabou por me cativar: talvez seja mesmo isto que estávamos a pedir há tanto tempo, sem perceber o que pedíamos.


Porque passámos anos a dizer que queríamos caras novas, gerações diferentes, alguém que não viesse formatado pelas mesmas dinâmicas, e, ainda assim, quando aparece alguém que cumpre tudo isso, a reação é de desconfiança. É quase cómico. Queremos renovação, mas queremos que ela venha embrulhada na linguagem, na segurança e no tom dos velhos conhecidos. Queremos o novo, mas desde que soe familiar.


E sim, o Rui Tavares seria, em teoria, o candidato natural, o de ar presidencial, de discurso polido, o que transmite estabilidade e cultura. Só que esta admiração que causa traduz-se também em distanciamento. Não os conheço, mas se me cruzasse com o Rui sentir-me-ia intimidada, ainda que pela admiração. Quando olho para os outros candidatos, vejo políticos; quando olho para o Jorge, vejo um tipo como eu. É alguém com quem conseguimos identificar-nos. É carismático, mas os seus discursos não parecem de todo vindos de um manual, a forma como fala não parece artificial,  parece que está a aprender, e sem toda aquela pose e discursos pré-fabricados, isso gera conexão e confiança. Dá a sensação de que podia ter andado connosco na escola e, por acaso, agora está a candidatar-se a representar-nos. E isso, nesta altura, é quase revolucionário.


Enquanto o Ventura se repete todos os dias na televisão, ensaiando indignações e poses, vendendo a ideia de juventude como se fosse sinónimo de rebeldia, o Jorge representa outra coisa: a possibilidade de ser novo e, ainda assim, mostrar maturidade e erudição, e fazê-lo numa língua que todos entendem. O Ventura é o espetáculo disfarçado de mudança; o Jorge é a mudança em si, tão improvável que a primeira reação é a incredulidade.

O Livre, dentro das suas limitações, tem mostrado que sabe o que faz. É, neste momento, a única esquerda em crescimento, porque se mostrou atual e sabe jogar o jogo. Esta candidatura, mesmo que não se traduza em números gigantes, pode significar algo muito mais importante: o momento em que o partido deixa de ser uma promessa simpática e passa a ser um espaço consolidado.


O Jorge não tem aquele ar de presidente pronto a posar para o retrato, nem fala como quem vem explicar-nos o país. E talvez por isso seja o primeiro, em muito tempo, que não soa a encenação.É o tipo que podíamos encontrar no metro, num café, e reconhecer como alguém que ainda está a tentar compreender o país, em vez de fingir que já o percebeu. Talvez seja isso que nos faltava, alguém que não nos trate como plateia.


Há quem diga que lhe falta experiência, mas, olhando à volta, a experiência tem servido mais para se perpetuar do que para servir. E talvez a experiência que mais falte à política seja precisamente essa: a de viver com o resto de nós, no mesmo tempo, com as mesmas dificuldades e a mesma vontade de não desistir.


O Jorge Pinto não é o candidato que esperávamos, mas é o primeiro, em muito tempo, que parece falar connosco e não para nós. E num país exausto de discursos fabricados, de personalidades recicladas e de promessas sem alma, isso basta para querer ouvir o que ele tem para dizer.


Talvez não seja o presidente que imaginávamos, mas é, sem dúvida, o tipo com quem ainda conseguimos identificar-nos. E já isso, no estado em que estamos, é quase uma forma de esperança.


  • CN, 16/01/2026

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