O meu voto no António Filipe
- Maria Papoila

- 16 de jan.
- 3 min de leitura

Há momentos em que o silêncio se torna mais pesado do que qualquer palavra, impondo-se como um fardo sobre a consciência. Noutros momentos, falar é mais do que uma escolha: é um dever de consciência, uma necessidade de partilha diante da responsabilidade coletiva. É deste lugar de reflexão e responsabilidade que nasce esta carta, não impulsionada pela urgência dos calendários eleitorais, pelo ruído constante das redes sociais ou pelo desejo de agradar. Ela nasce da memória de quem nos antecedeu e do compromisso para com as gerações vindouras.
O voto em António Filipe, candidato do Partido Comunista Português, não representa um ato isolado ou ocasional. É uma opção construída sobre longos anos de luta, marcada pela coerência e pelo compromisso com os trabalhadores, a democracia e a dignidade humana. O PCP é um partido que se manteve presente mesmo nos momentos em que isso significava risco e sofrimento. Não surgiu quando era confortável, mas existiu quando a sua mera existência era alvo de perseguição.
Os militantes do PCP enfrentaram a clandestinidade, a prisão, a tortura e o exílio. Sofreram com a perda de emprego, a vigilância constante e o medo permanente. Ainda assim, escolheram resistir, movidos pela crença de que nenhum povo nasceu para viver de joelhos.
Durante o fascismo, enquanto a opressão silenciava a sociedade, o PCP organizava-se. Defendia direitos quando estes eram proibidos e mantinha acesa a chama da liberdade, mesmo quando isso era considerado crime.
Com a chegada da democracia, após o 25 de Abril, muitos ajustaram os seus discursos ou reescreveram o passado. O PCP, porém, manteve-se fiel às mesmas causas: trabalho com direitos, salários justos, pensões dignas, saúde e escola públicas, habitação, cultura e paz. Essa coerência teve custos elevados, traduzidos em ataques, ridicularização e isolamento, mas o partido continuou a pagar esse preço em nome dos seus valores.
Votar em António Filipe é reconhecer essa coerência num homem que encara a política como serviço, não como espetáculo. É um político que defende o respeito pelas pessoas, recusa o populismo, os gritos e os insultos, e acredita que a verdade e a honestidade são valores essenciais na vida pública.
Num tempo em que o autoritarismo ressurge sob novas máscaras e em que o ódio e o fascismo tentam normalizar-se com discursos renovados, esta escolha representa também um ato de defesa da democracia. O fascismo não começa com tanques, mas com a indiferença, com mentiras repetidas e com o desprezo pelos mais vulneráveis. A história ensina que ignorar estes sinais tem sempre custos elevado.
Este voto não é dirigido contra pessoas, mas sim contra a injustiça, a exploração e o esquecimento. É um voto por quem trabalha e continua pobre, por quem envelheceu após uma vida inteira de descontos, por quem teve de emigrar para sobreviver e por quem acredita que a democracia deve ser para todos e não apenas para alguns.
A consciência é também uma forma de intervenção política. Pensar é, por si só, um gesto revolucionário e cuidar da memória coletiva é uma maneira de proteger o futuro.
Esta carta convida à reflexão, à escuta e à assunção de responsabilidade, lembrando que votar é escolher o país que queremos ser.
Para terminar, é impossível ignorar o tempo que vivemos.
A esquerda tem hoje a responsabilidade histórica de combater a avalanche do fascismo, que cresce alimentada pelo medo, pela desinformação e pela normalização do ódio. O fascismo não surge de repente — avança quando encontra divisões, silêncios e desistências.
Nenhuma força progressista é suficiente sozinha. A história ensina-nos isso com dureza. Sempre que a esquerda se fragmentou, o autoritarismo ganhou espaço. Sempre que se deixou dividir por egos, diferenças secundárias ou disputas estéreis, abriu caminho àquilo que depois diz combater. Este é o tempo de unidade, não de pureza isolada. De pontes, não de trincheiras internas. De consciência coletiva, não de vaidades individuais.
Unidos não significa iguais ,significa caminhar no mesmo sentido quando os direitos, a liberdade e a dignidade estão em risco. Significa compreender que, perante o avanço do fascismo, não há neutralidade possível.
Acreditamos que a esquerda só será forte se for capaz de se reconhecer como parte de uma mesma luta maior: a defesa da democracia, do trabalho, da justiça social e da humanidade.
Porque quando o fascismo avança, não pergunta em quem votámos. Pergunta apenas quem resistiu , e quem ficou a ver, e o PCP há anos que resiste.
Que saibamos estar à altura do tempo que nos calhou viver.
Com coragem. Com memória.
E, acima de tudo, juntos.
Há votos que se perdem no ruído, mas votar no candidato Antonio Filipe é um voto de consciência. E quando a consciência desperta, tem o poder de transformar tudo. Que nunca nos falte memória, coragem e humanidade.
Saudações comunistas
Maria Papoila, 15/01/2026




Comentários