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Voto no Seguro e a necessidade do voto estratégico

  • Foto do escritor: Errico Cafiero
    Errico Cafiero
  • 16 de jan.
  • 3 min de leitura
cartaz candidatura Seguro

Camaradas,


Pretendo, com esta carta, explicar a minha posição quanto ao voto nas eleições presidenciais de 18 de janeiro. Faço-o não como uma palavra de ordem ou um incentivo para orientar o vosso voto mas sim, para explicar a reflexão que me levou a defender o voto estratégico no António Seguro.


Como já perceberam, o meu voto no candidato do PS não é por adesão ao seu projeto político, nem pela confiança que mostra nas instituições deste regime ou o “sentido de estado” do mesmo, mas por uma análise concreta da conjuntura política atual e da correlação de forças nestas presidenciais. Num momento como este onde a extrema-direita ganha força, considero que a nossa luta, a luta antifascista, exige também que enquanto antifascista eu possa tomar decisões táticas que difficeis mas necessárias.


O voto estratégico, no contexto da luta antifascista, não é um voto de esperança ou de compromisso ideológico. É, sim, um instrumento defensivo. Até porque, como sabem, temos hoje no GARA militantes de vários partidos, do MRPP ao PS, que defendem candidatos e programas diferentes mas que se unem num objetivo em comum, o da luta antifascista. Este instrumento do voto estratégico serve para bloquear, conter ou atrasar a chegada da extrema-direita em cargos de poder que lhe daria legitimidade, a capacidade repressiva e a margem política para poder atacar diretamente movimentos sociais, sindicatos, migrantes e organizações antifascistas, como temos verificado seja nos Estados-Unidos, na Itália ou ainda na Hungria.


A história “recente” mostra-nos um exemplo claro disso com as eleições presidenciais de 2002 na França, quando Jean-Marie Le Pen chegou à segunda volta das eleições presidenciais. Nesta altura, vários setores da esquerda radical, dos movimentos antifascistas, das organizações operárias ou ainda dos artistas da sociedade francesa chamaram ao voto contra o candidato do Rassemblement National. Esse apelo não foi feito partindo de uma confiança no sistema ou de uma ilusão quanto ao candidato que se apresentava face ao Jean-Marie Le Pen, mas de uma compreensão lucida do perigo imediato que esta candidatura representava e que seria ter a extrema-direita a ganhar estas eleições.


Neste momento, os camaradas dos grupos antifascistas franceses, entre outros, entenderam que impedir a eleição do Le Pen era uma prioridade tática, mesmo mantendo uma oposição frontal e assumida contra o neoliberalismo, o autoritarismo estatal e a este sistema que alimenta as forças proto-fascistas. O voto não foi visto como um fim em si mesmo, mas como um gesto de contenção que acompanhava e complementava a luta nas ruas. É neste sentido que tomei a decisão de apoiar o voto estratégico no António Seguro. Continuo convencido de que o fascismo não se derrota apenas nas urnas mas sim, na rua.


No entanto, também estou convencido de que as dificuldades que nos trazem o simples facto de termos um governo de direita cada vez mais colada à extrema-direita, seria exponencialemente maiores com um presidente como o André Ventura. Para mim, a luta antifascista constrói-se na organização, na solidariedade, na ação direta, no trabalho de base e na permanente confrontação com o sistema que gera este ódio e a exclusão que combatemos. Mas também sei que ignorar completamente o terreno da luta institucional pode ter consequências graves, sobretudo num país como Portugal onde o povo não é muito conhecido por ser rebelde e pronto a tomar as ruas quando nos atacam.


Hoje, assumo esse voto mesmo que me custe imenso, mas não abdico de nenhuma das minhas convicções revolucionárias nem da crítica ao sistema político atual ou aos projetos defendidos pelo Partido Socialista. Faço-o porque considero que usar todas as ferramentas possíveis para poder travar ou barrar o avanço da extrema-direita é uma obrigação nossa, mesmo quando esta implica escolhas táticas que possam ser vistas como contraditórias ou que nos custe.


Espero que a minha reflexão possa contribuir para um debate fraterno, honesto e necessário entre nós, mantendo como objetivo comum a derrota total do fascismo em todas as formas que possa adotar.


Saudações revolucionárias,


  • Errico Cafiero, 16/01/2025

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